www.aepga.pt » Acções e Eventos
10 de Fevereiro de 2012

05 de Agosto a 01 de Setembro de 2004

Uma Burrada em Trás-os-Montes

Por Trás-os-Montes

 
Apresentação  |  Informações

Não adianta catar razões que expliquem que alguém de vida agitada e urbana decida pegar num burro e se ponha, durante um mês, a subir e descer montes ou a entrar na vida das aldeias por onde passa. 
Pode-se ver nisto uma tentativa de reter um pouco da sabedoria antiga e das formas de vida que lhe estão associadas antes que já não restem exemplos vernáculos. Pode-se intuir uma saturação da atmosfera citadina e a procura do silêncio e da amplitude que atribuímos à ruralidade. Em ambos os casos, uma procura do tempo perdido. 
Justificações tão verdadeiras como incompletas, insuficientes para arrancar alguém dos seus confortos e lançá-lo numa viagem a todos os títulos desafiante. Deixemos as justificações. O homem sonha, o burro anda, o caminho faz-se. E faz-se de episódios que parecem fictícios, ou mesmo, por momentos, verdadeiros trechos cinematográficos. É a partir do relato de alguns deles que tentarei dar uma imagem deste meu último Agosto.  

 A Ceguinha  

 

Antes de tudo, uma apresentação da minha companhia de viagem, amavelmente emprestada pela Associação para o Estudo e Protecção do Gado Asinino (A.E.P.G.A. – ver caixa). A Ceguinha é uma burra mirandesa com a venerável idade de 15 anos, devendo o seu belo nome ao surgimento de cataratas no olho esquerdo, do qual não vê. Como consequência, tende a assustar-se com movimentos bruscos ou anormais que pressinta desse mesmo lado. Apresenta uma compleição robusta, bem nutrida, e no momento da viagem a sua pelugem encontra-se muito mais curta do que é normal nos espécimes da raça mirandesa, resultado de, um par de semanas antes, ter sido roubada durante a noite numa feira de agropecuária. Foi encontrada dias depois com este sofisticado corte.   

 

É também uma burra travessa, andando sempre no limite do que as regras de etiqueta permitem. Sempre que podia e que o espaço o permitia, soltava-a para que pudesse andar à vontade, rebolar-se no chão, dar umas corridas, mas as tentativas de fuga aconteceram várias vezes, duas ou três delas com um sucesso primoroso (como adiante se saberá). Assim fui aprendendo a reconhecer, pelo andar saracoteado e pelos olhares oblíquos, a congeminação de uma marotice.  

A meiguice é outro traço que caracteriza a Ceguinha. Descobri, quando ao amanhecer lhe colocava a cabeçada e a aparelhava para a viagem, ou ao fim do dia realizando as operações inversas, que ela se acalmava se lhe cantasse, ficando muito quieta e atenta. À noite, depois de lhe fazer uma pequena massagem e lhe dar o “docinho” (um ou dois litros de grão), muitas vezes premiava-me ela com uma manifestação de ternura roçando o pescoço nas minhas costas ou encostando a testa ao meu peito.  

Se calhava de pernoitarmos mais de uma vez no mesmo local, ficava francamente impaciente. Zurros, coices no chão, esgares desesperados, tudo era tentado para nos fazermos sem delongas à aventura.  

Fora isto, duas coisas constituem as problemáticas existenciais da Ceguinha: comer e comer. Saciadas (dilatadamente) estas obstinações, temos burra! E ala que se faz tarde.

O primeiro dia 

 


Não imaginava eu que uma burra pudesse atingir semelhantes velocidades. Descobri-o com pasmo na minha primeira meia hora de viagem com a Ceguinha.  

 

 

Tudo começa de forma algo insólita. Parto de Atenor, aldeia muito próxima de Sendim e lar dos burros da A.E.P.G.A., em direcção a Teixeira, onde almoço. Até aqui sou acompanhado pelo Nuno, um elemento da associação, e por um grupo de surdos-mudos em excursão asinina (a asinoterapia é uma actividade com uma adesão crescente).  

Somente quando me vejo a mim e à burra na estrada, entregues à paisagem imensa que servirá de cenário para um longo e aventuroso mês, é que começo a ter em linha de conta os riscos, os desconfortos, a falta de referências, enfim, os contras da viagem. Penso em como dá jeito não antecipar estas ponderações para fases anteriores à partida: possivelmente não estaria ali.  

A Ceguinha enceta a viagem com uma resistência feroz, tendo eu que fazer uso de alguma violência ao puxar a corda de cada vez que ela amua a olhar para trás.
No meio de todo este frenesim, começam a reunir-se no azul do céu nuvens suficientes para atiçar a minha apreensão. Obviamente havia-me informado do estado da meteorologia dos últimos tempos e das previsões que os locais faziam: “Desde Junho que não cai uma pinga. E o bom tempo está para durar…”. Pois bem, um quarto de hora foi quanto andei sem sentir a tal pinga, reprimida desde Junho por quem controla os factores climatéricos para ser utilizada neste momento, como uma vingança vil e impiedosa. Não foi um balde de água fria porque foi muito mais do que um balde. Não tinha sequer considerado a hipótese de tal coisa acontecer tão cedo, e não conseguia forjar uma estratégia debaixo da chuva. Por fim, resolvo-me a parar num lameiro cercado por freixos e silvados, empurrando a Ceguinha através de uma entrada acanhada, retiro-lhe a carga do lombo e desato a montar a tenda. A chuva vai parando à medida que eu termino. Não consigo deixar de me sentir o alvo de uma maquinação dos céus contra mim.  

Enquanto me refaço da zombaria, dou pela Ceguinha a fazer uma retirada subtil pela entrada do lameiro, agora tornada saída. Será possível estar a acontecer tudo isto num tão curto espaço de tempo? Dirijo-me pausadamente na direcção dela, mas a burra é sabida e não se deixa enganar. Desata a correr cada vez mais rápido, e eu, desalmadamente, persigo-a no limite das minhas forças. A correria dura quase cinco minutos, o suficiente para, no momento em que a alcanço, os meus pulmões se terem já contraído e eu estar à beira do colapso. Enquanto regresso, a chuva ameaça voltar. O dia continuará assim durante horas. “Estou frito”, penso.  

Questiono uns homens que surgem ali para compor um cantão da estrada acerca dos destinos a que me posso abalançar. Juntam-se os três num concílio de emergência para me resolver o problema. A boa vontade e benevolência desta gente muitas vezes nos retém por longos instantes num emaranhado de possibilidades, das quais normalmente ficamos apenas com as últimas palavras e com um certo atordoamento. Isto até que se aprenda que o que interessa não é o resultado mas sim o processo. Apenas quando deixei de procurar uma única informação precisa é que comecei a usufruir dos bons momentos passados a ouvir histórias antigas, daquelas que se contam por aí e daquelas mais autobiográficas.  

Prossigo o meu caminho com o fito de abandonar a estrada por um caminho em que o perigo que são os automobilistas portugueses esteja ausente. Não sei por onde vou mas sei que não vou por aí, lembrei-me na altura, a propósito. Não sabia realmente por onde ia. Faço uma tentativa frustrada monte abaixo que me custa mais de uma hora de caminhada, ao que se soma uma nova investida da chuva. Mas entretanto já tenho a bagagem sobre a Ceguinha protegida pelo impermeável da tenda, resultando disto uma imagem curiosa, espécie de caracol imenso.  

Acima de tudo, o cansaço relativiza muito qualquer incómodo. Começa-se a pensar que não tarda nada e o sol voltará para secar tudo. E é isso que acontece nas últimas horas do dia, até chegar a Mora.  

Por estas bandas as pessoas ainda se tratam na segunda pessoa do plural. Ando por ali até encontrar alguém com ares de ter comida para a burra. Não leva muito tempo até ter dois sacos cheios de palha de aveia e grão de cevada. Um pitéu. “Quanto lhe devo?”, “Vós, a mim, não me deveis nada.” O dia acaba com uma descida dourada pelo sol poente até chegar a uns formosos lameiros que ladeiam a ribeira de Angueira. Ainda tenho tempo de, pela minha simples presença, assustar um velho que por ali faz a digestão. Ao atingir o cimo do monte, vitupera-me até ao limite das suas goelas, mas apenas distingo as palavras “alma do demónio” e “encruzilhada”. Depois disto, eu e a Ceguinha temos o nosso primeiro jantar romântico com direito a acompanhamento musical, já que a viola não pode apenas servir para fazer peso nas alforjas. Adormeço debaixo do manto de estrelas, creio que a sorrir. 

 

 

Interlúdio no Azinhoso  

Por uma avidez desmedida de galgar caminho, ao segundo dia esgotei a frescura que levava nas pernas… Deixei-me assoberbar pela magnificência das vistas, pela sucessão de graciosas aldeias, o próprio cansaço dava-me alento para continuar até ao fim não sei de quê. Quem mais sofreu foi a Ceguinha, que não estava ainda em forma. De perto de Mora até ao Azinhoso, passando por Algoso, Valcerto, S. Martinho do Peso e Penas Róias, os declives inspiram respeito e o dia foi de um calor infernal, branco e seco.  

O meu destino tinha água no bico, o bico é que teve que se esticar bastante para chegar à água. O Azinhoso, que tem como ex libris uma igreja românica do séc. XIV indiciando a presença dos templários por estas bandas, é uma aldeia quase vizinha da vila de Mogadouro. Mas o que me traz cá é uma costela que daqui veio, costela essa que costuma ser acolhida lauta e generosamente, que é o que preciso depois da estirada de hoje. Depois da nocturna chegada alvoroçando os serões de quem conversava à soleira da porta, o dia seguinte foi de recobro. Refeições fartas com o meu avô, longas conversas com as minhas tias. As minhas tias falam como se lutassem contra o silêncio, vêem mais tristeza nas pessoas hoje do que dantes. Lembram-se de quando muito do trabalho do campo era feito por todos em conjunto, como as pessoas se ajudavam, como trabalhavam de sol a sol mas cantavam ao longo do dia. “O mundo hoje está do avesso e já não há conserto”, diz a tia Deolinda. “A televisão não deixa sair de casa para que as pessoas convivam”, apontam, encolhendo os ombros. O mundo que elas conheceram vai-se reduzindo a cacos, as pessoas vão morrendo, “deixando livre o terreiro” porque não há quem as reveze. Mas dantes também “havia quem morresse de fome ou de frio”, por isso tantos partiram em busca de melhor vida. Eu apenas ouço, porque talvez chegue o dia em que já não haja quem conte.  

Mas, entretanto, muito há que fazer nesta batota precoce ao meu projecto andarilho. Remendar a capa da tenda, alvo de uma dentada da Ceguinha que durante a primeira noite foi atada com uma distância insuficiente; cozer a cabeçada de couro que se rompeu com o ímpeto dos meus puxões; ir alimentando a burra para que resista à dureza que virá. O dia seguinte voltará a ser comprido.

 

Diálogos
“O que é que vende?”, pergunta uma mulher velhíssima, muito seca, de negro, como em toda a Europa ocidental apenas há neste país. Sem conseguir dissimular uma curiosidade transbordante, assiste a algo difícil de arrumar nas prateleiras do seu entendimento. A entrada, na aldeia, de um rapaz acompanhado de uma pequena cadela (uma aquisição imprevista) e de uma burra com duas alforjas bem carregadas, todos com o ar de quem já leva vários quilómetros nas pernas, confunde-a até à inquietação. “Nada, minha senhora. Eu só compro, ou então aceito o que me dão.”, respondo eu. “Ah, anda a pedir, ora anda?”, tenta ela, julgando ter decifrado a visão. “Também não. Ando só a dar um passeio com a burra…”. Quer saber de onde venho; falo-lhe por alto do meu percurso até à data – emite interjeições de admiração, mas o semblante mantém-se desconfiado. A estranheza da minha figura obstrui o entendimento mútuo. Os seus anos, que já viram muito, dizem-lhe que sou inverosímil.  

No entanto, nos incontáveis encontros que fui tendo com aqueles com quem me cruzava, o mais comum é que o diálogo prosseguisse com as seguintes dúvidas: donde é que você é?, de quem é a burra?, e o que lhe dá de comer?, agora para onde é que vai?, onde é que dorme?, e não tem medo de andar para aí sozinho?, está a pagar alguma promessa?, é dos que gostam da natureza?, quer comer alguma coisa?, já provou o vinho aqui da terra? (geralmente é nesta altura que a hospitalidade se intensifica e dentro de pouco estou a tirar a barriga de misérias). 

Desta vez, uma última tentativa trouxe esta anciã do fundo do campo até mim, para que os seus olhos se aproximassem daquilo que o sentido não podia. Olhou a guitarra e exclamou: “- Ah, é tocador! Anda a correr as romarias a tocar?”. Eu: “É isso mesmo! Ando a correr as romarias a tocar!”. Despedimo-nos, ambos satisfeitos.

O bicho em Guadramil 
Cinco da manhã. Guadramil, povoação pequena de topónimo bárbaro, enfileirada ao longo de um pequeno vale entalado entre montanhas. Tudo negro: o sol tarda em dar sinal de si, mas eu já estou a caminho dos Rouços, como lá chamam aos cabeços de uns montes a oeste da aldeia. A noite anterior foi de festim: a aldeia juntava-se para comer o javali que os homens haviam caçado numa batida realizada conjuntamente com gentes de outras aldeias da Alta Lombada. A cena era digna dos livros do Asterix, e eu, estando nessa noite acampado no próprio local da tainada – a escola primária (desactivada, como quase todas pelo Nordeste fora), fui convidado. Ainda me pediram que tocasse umas modinhas na viola, mas não quis assumir o papel do bardo a quem era necessário amordaçar e preferi encantar-me com as histórias dos pastores da aldeia, de hoje e de outrora. Deram-me informações preciosas para o meu intuito de ver o veado e o “bicho”, ou seja, o temido e respeitado lobo, e é aqui que voltamos para a madrugada do dia seguinte. Está escuro, caminho sem a burra, que ficou na segurança da aldeia, e acompanhado da cadela, a quem confesso der dado o indigno nome de “Dentuça”. Em meia hora atinjo um terreno um pouco mais plano, onde repentinamente ouço um estrépito a pouco mais de vinte passos da posição onde me mantenho, agora petrificado. Não se lobriga nem os contornos do que apenas poderia ser um animal de porte considerável, que entretanto começa a afastar-se lentamente emitindo o seu grotesco protesto. Era certamente um veado. Neste momento inefável, tive-o junto de mim mas nem pude reter uma imagem sua. Enfim, a noite já não é nenhuma criança e estará prestes a definhar perante a aproximação implacável do sol. Mais meia hora e já se vêem as linhas que dividem os montes dos céus, cada vez mais carregados daquelas cores vivas que anunciam o calor. E é precisamente dessas linhas que se ouvem urros estrondosos a anunciar as cabeças que vão surgindo, uma a uma. Manadas de veados! Grupos de fêmeas, verdadeiros haréns para os machos, que se refastelam com a sobremesa do seu banquete nocturno.
Depois de muito tempo de observação enlevada, resolvo aproximar-me sorrateiramente, acaçapado ao nível dos arbustos, até ao cimo do monte. Quando o atinjo, levanto-me devagar e tenho meia dúzia de veados a menos de quinze metros. Cheiram o ar, avaliam o perigo, medem-me através de sentidos insondáveis. Infinitos segundos assim. Então, a um tempo, desatam todos a correr monte abaixo pelo lado oposto, vertiginosamente íngreme. A terra treme, e eu com ela. Fico parado, agradecido. Não posso querer mais. No entanto, sei que vou voltar aqui, e da próxima vez será pelo “bicho”.

De Pinelo a Vimioso 
Saio bem cedo de Pinelo, aldeia ainda farta em burros. O destino é a vila de Vimioso, sede de concelho e lugar onde poderei levantar dinheiro. Há já mais de uma semana que vou vivendo da generosidade das pessoas e de uma nota das pequenas. Não estou em desespero porque ainda me restam umas moedas, e com moedas, por estas bandas, andam-se muitas léguas sem fome. 
Uma manhã a trilhar um caminho que começa a ser consumido de novo pela voragem da vegetação, o que provoca uma inquietude ligeira mas constante: nunca se sabe se adiante ele se fechará irremediavelmente, muitas vezes acarretando uma longa inversão de marcha. 
Neste caso, a sorte foi minha companheira, mas não vinha sendo sempre assim. Cheguei a enfrentar sérias contrariedades devido ao abandono que vai delapidando o grande tesouro que é a rede de caminhos antigos, esquecidos com as suas histórias de séculos, os seus segredos e ensinamentos. Aliás, era com muito pesar que as pessoas das aldeias me viam desaparecer à boca dos caminhos, gorados os seus esforços em convencer-me a tomar a estrada: “ é mais seguro, não se perde e não vai tão sozinho, se lhe acontecer alguma coisa…”, diziam. 
Não me aconteceu nada a não ser ter-me maravilhado com a intocabilidade dos recantos por onde passei, habitados pelo silêncio verde, pelas aves e, a avaliar pela quantidade de dejectos encontrados, por uma população considerável de javali e algumas raposas. Ao entrar, por fim, em Vimioso, ouço mugidos em massa saídos de um enorme recinto à minha esquerda. Lembro-me de uma conversa da noite anterior: é a grande feira e concurso de gado bovino mirandês! Que tal levar um exemplar do gado asinino a cumprimentar os seus conterrâneos? 
A minha entrada foi assombrosa: de um alvoroço prévio, à minha visão as bocas iam emudecendo, os comentários e perguntas iam sendo murmurados, centenas de olhos iam assentando em mim e parecia que de repente o meu peso duplicava. Que imagem peregrina teria eu, a Ceguinha e a Dentuça para despertar tamanha reacção de estranheza… Senti-me compelido a pronunciar algumas palavras que aproximassem: “alguém me arranja um cacho de palha para dar à burra?”. A reacção que obtive com o que disse foi surpreendente. Várias pessoas quiseram ser elas a satisfazer-me o pedido, e conseguiu-o quem foi mais enérgico nos seus esforços. Num minuto, a Ceguinha tinha diante si comida para uma semana. E já havia um homem que havia açambarcado o encargo da minha recepção, levando-me a mim próprio a comer e a beber, depois de me ter arranjado um local onde guardar os meus pertences. Queria saber tudo sobre a viagem, mas tinha dificuldade em manter o silêncio para escutar. Apresentava-me a toda a gente – era notoriamente popular naquelas bandas – descrevendo-me de forma exacerbada, como se falasse de um herói, exaltando e agigantando os meus “feitos” de forma progressivamente ficcional, enquanto pontuava o seu discurso virando-se para mim a puxar a corroboração: “é ou não é verdade?”. Como não parava de dar-me de beber, e achando-lhe eu graça, acenava que sim e punha-me com o ar distante de quem é feito de outra massa. Afinal, o que conta não é bem o domínio dos factos, mas aquilo que eles despertam. 
Isto até ao momento em que surge o presidente da câmara, muito cortês, a dar-me as boas vindas. O meu anfitrião tomou rapidamente conta da conversa descrevendo-lhe as minhas façanhas, e já agora as suas desde que eu cheguei, como me fez isto e aquilo à burra, “é ou não é verdade, falta-te alguma coisa?”. Não, não me faltava; ainda assim, depois de umas mesuras de quem compreende que não me tratava eu de um pobre coitado e que poderia esconder algum estatuto mais interessante, o presidente dá-me o seu cartão. Agradeço, e ele repete: “já sabe, o que precisar…”. Vim a saber, pela ênfase colocada pelo meu amigo neste assunto, que aquele cartão me atribuiria algumas prerrogativas em Vimioso, nomeadamente quanto a estadia ou alimentação. Porém, não cheguei a pôr isso realmente à prova, a não ser na fartança que foi o almoço na própria feira, da melhor carne mirandesa, e com o que consegui depois engolir ao jantar. Durante a tarde ainda assistimos a uma chega de bois, espectáculo poderoso num descampado enorme circundado por uma verdadeira multidão. Tudo banhado do ouro do pôr-do-sol.  
A noite foi o desenlace perfeito para um dia em cheio. Quando já pensava em recolher-me, surge-me ainda o meu incansável amigo a dizer-me que pegasse na guitarra, que íamos ter com uns cantadores de Caçarelhos que estavam junto à bomba de gasolina a cantar à desgarrada. Depois da narração das minhas aventuras, que a esta hora já incluíam uma passagem pelo Porto e cenas de luta violenta com bestas selvagens, foi-me dado o direito de ocupar um lugar junto aos músicos e cantadores. Com a minha pobre guitarra e com o meu pobre talento musical, lá fui tentando acompanhar os fados regionais que se cantavam. E com que prodigioso engenho as rimas e os acordes, cheios de significado e repentismo, iam sendo improvisados pelos artistas. Até que o meu corpo se resolveu a pôr um ponto final na farra e me levou para o meu humilde poiso junto da Ceguinha. 

 

A navalha de Palaçoulo
Ainda o sol não irrompeu e acordo de um sono profundíssimo com rosnadelas da Dentuça a alguém que se aproxima da tenda. Tento lembrar-me num único instante de quem sou, de onde venho e onde estou: sou um campista furtivo que no dia anterior ao anoitecer, pouco antes de chegar a Palaçoulo, escolheu este lameiro, plano e camuflado de árvores, para lhe servir de albergue. Abro atabalhoadamente os fechos da tenda e tento focar a figura, que se acerca em posição de atalaia e de cajado na mão. Há que fazer instalar-se a cordialidade com ligeireza. “Bom dia, o lameiro é seu, não?”, “Ah pois é!”, responde ainda tenso, “Olhe, então devo-lhe um pedido de desculpas, porque ontem…” e com tacto vou ganhando a confiança do meu interlocutor, que quando me calo já me convida sorridentemente a ficar o tempo que precisar, apenas terá que deixar ali a pastar as suas burras enquanto vai para as lides do campo. Pois que deixe e não vá sem um agradecimento, “mas conto estar novamente a andar muito antes que venha o calor”. É um homem bastante velho, vivíssimo. 
Estou eu a desmontar a tenda e o tumulto atrás de mim faz com que me volte. Decorre a cena de um hipotético filme de artes marciais entre burras, com aplicações sucessivas para um lado e para o outro da célebre patada traseira, ou coice, em linguagem técnica. Eu assisto e não intervenho, dado a luta estar inflamada e a parte pela qual eu torço não patentear nenhum tipo de desvantagem. Quem o faz é a Dentuça que, mínima nas suas dimensões relativas, começa a investir sobre o par oponente com um sucesso arrebatador. Ganhámos!
Vou demorando e ainda encontro o sr. “Gregos”, “chamam-me assim porque vim de uma aldeia aqui de perto que tem este nome”, a regressar da horta no tractor, com a mulher. Mais um pouco de amistosa troca de palavras e pergunto-lhe onde comprar uma navalha artesanal de Palaçoulo, da qualidade que tinham antes da norma das lâminas inox. Não sabe se encontrarei, está tudo fechado, é o dia da festa… “Mas espere lá”, enquanto tira a sua do bolso, “era uma destas que queria?”. “Pois, era mesmo isso…”, e ele vira-se para a mulher para uma conferência sumária acerca do preço, dizendo-me: “Olhe, se você quiser, vendo-lha por quinhentos escudos, mas veja lá que já está usada…”. “Não, não lhe dou menos de mil escudos por ela”, respondo, mas ele “Então assim não fico bem de consciência”, e eu, “Está a querer vender-ma por um preço já muito antigo. Dou-lhe os mil escudos e fechamos negócio.”, remato. “E ficamos amigos, então”, com a mão, trémula e forte, a envolver a minha. O sr. Gregos explicou-me como fazer para dar com a sua casa, que estaria aberta para mim quando precisasse de voltar a pernoitar em Palaçoulo. Arranjar-me -ia um lugar na loja para a burra. Os seus olhos luminosos e o seu sorriso de uma bondade muito antiga, transbordante, investem-me de um leveza duradoura.

 

 

O que se vê de Algoso 
Há coisas que apenas se podem aprender pelo corpo. Do cimo do castelo de Algoso, o meu cansaço ensina-me história. Parece que a cada novo dia de caminho me vou aproximando do passado. 
Compreendo o que são realmente as distâncias, mas ao mesmo tempo que me vejo minúsculo comparado com elas, ganho uma dignidade desconhecida: a de poder depender apenas das minhas pernas para vencê-las. Bom, a ajuda asinina com a bagagem não pode ficar omissa. Além disso, o trato com a minha companheira orelhuda foi uma outra fonte de lições de vida. Quando, com a teimosia que se atribui aos asnos, quis celeridade no passo, cumprir objectivos, fugir aos desconfortos, a Ceguinha soltou-me o espartilho do programado e do seguro, devolvendo-me o momento presente, ou melhor, o presente do momento. “Chamam-te burra e ceguinha, mas a mim sempre me vais abrindo os olhos”, murmurava-lhe eu. 
O passo de um burro não deixa a ânsia de chegar ao destino sobrepor-se às revelações que o caminho encerra. Anda-se devagar, aprende-se a aceitar a lentidão. A imaginação tem tempo para amadurecer os seus frutos, mostra-se mais generosa do que quando já sabe onde quer chegar. 
Do cimo do castelo de Algoso vêem-se caminhos que não acabam, que sobem e descem montanhas, que se cruzam e se despedem, e eu começo a entender, pelo meu próprio pé, como tudo isto é metafórico.

Caixa A.E.P.G.A. 
A A.E.P.G.A. – Associação para o Estudo e Protecção do Gado Asinino, uma instituição sem fins lucrativos, foi criada em 2001 com o objectivo primordial de impedir a regressão da população de burros no Nordeste Transmontano, principalmente da raça de Asininos das Terras de Miranda, ou “burro mirandês”, única inventariada e estudada como autóctone até à data em Portugal. 
As suas tentativas de preservação e aproveitamento desta raça passam por estudos de caracterização e intervenção sobre a população asinina actual, pelo apoio técnico a criadores e pela promoção e divulgação de eventos nos quais a estrela é o burro mirandês, investindo na aplicação de um modelo de aproveitamento socio-económico baseado na cultura, nos saberes e nas tradições do Nordeste Transmontano. 
É possível e acessível, a quem esteja interessado, desfrutar das paisagens deslumbrantes das “Arribas” do Douro, como lá se chama à região que compreende o Parque Natural do Douro Internacional, com toda a sua diversidade biológica e geológica ao mesmo tempo que se contacta com modos de vida tradicionais sem perturbá-los. A página na internet, bem documentada e com os contactos da associação, é a seguinte: www.aepga.pt
Pela minha parte, tenho muito a agradecer à A.E.P.G.A., de que entretanto me tornei sócio, nomeadamente ao Miguel, ao Zézé, ao Nuno, à Cândida e ao Bruno. Sem eles, a minha viagem teria sido um sarilho!

 

 

 

 

©2005 Associação para o Estudo e Protecção do Gado Asinino
webmaster@aepga.pt

Recomenda-se Microsoft® Internet Explorer 6.0+ 
Resolução de 800x600 ou superior