Agora que já passaram alguns dias após a festa de São Martinho, no Nordeste Transmontano, percorre-me uma sensação de nostalgia. Era a primeira vez que viajava até essa região e ia participar num passeio de burro e num magusto tradicional, como é habitual nesta altura do ano, nas aldeias de Trás-os-Montes.
O Miguel, membro da AEPGA - Associação para o Estudo e Protecção do Gado Asinino, conhecido na região, convidou-me a participar neste evento e a conhecer a tradição que se realiza durante estes dias. A minha curiosidade, não criou muitas hesitações e num instante disse que sim, que ia.
São apenas três horas e qualquer coisa, o tempo que separa Madrid (cidade de onde parti) de Miranda de Douro. Em tão curto espaço de tempo e caminho (cerca de 300km), é possível apreciar diferentes formas de relevo, gentes e natureza. Nesta região, ainda estão bem presentes as tradições rurais e são muitas as pessoas que ainda vivem do campo, da sua horta, dos seus burros, galinhas, cães… Aqui ainda existe uma cultura rural que se pretende preservar, para que não se perca como já tem sucedido em outras regiões e culturas do mundo. Este é também o âmbito do trabalho desenvolvido pela associação ALDEIA, que também participou no São Martinho. Primeiro foi a industrialização e agora a globalização, que está a eliminar a identidade das pessoas e dos lugares, a conservação da natureza e a preservação da cultura e tradições que sobrevivem nos meios rurais.
Um dia com burros
Apesar do frio, na manhã de sábado, acordei com muita energia para ir ter com os burros e descobrir a paisagem transmontana. Pintor, Amadeu, Francês, Lourenço, Atenor, Zebro, Tó, Genisia, Outeira, Alter e Rumba e uma multidão de curiosos já estavam à nossa espera em Angueira quando chegamos. Neste tipo de evento, as famílias aproveitam para levar os mais pequeninos para que possam ter um contacto real e, muitas vezes o primeiro contacto, com os burros de Miranda, que constituem a primeira raça autóctone de asininos das Terras de Miranda.
Um café e um bocado de aguardente, que os habitantes de Angueira nos ofereceram com muita amabilidade, foram os ingredientes necessários para ganhar forças e começar a subir as encostas do monte pelo “Caminhico Branquinho”. No caminho podia ver-se a vegetação típica desta região como os medronheiros, castanheiros ou romeiro. O Nuno, membro também da AEPGA, mostrava o seu conhecimento em plantas no decorrer do percurso com explicações sobre as suas utilidades na cozinha, mas que estão a desaparecer pela forma excessiva como as pessoas as colhem.
A música também foi protagonista nesta festa. As gaitas marcaram o ritmo e tantas as pessoas como os animais caminharam mais entusiasmados. Emoção que foi aumentando até chegar ao lugar onde íamos almoçar, na aldeia de Serapicos. O local era perfeito, com um pequeno bosque e um lago muito acolhedor. Daniel, que também esteve presente durante o fim-de-semana para gozar a festa, deu-me a provar uma iguaria típica da região – alheira. Tinha um sabor e uma textura muito suave.
O sol não nos quis acompanhar durante a tarde, mas isso não foi impeditivo que a viagem não continuasse. As 17:00, o sol já se ponha e acabávamos de chegar a São Joanico onde nos esperava um jantar micológico delicioso. Pela noite, desfrutamos do magusto e do arraial tradicional com o grupo “Velha Gaiteira” até quase ao nascer do sol, até quando os corpos já não tinham mais força. Mas os deliciosos produtos que se ofereciam ao final da festa (mel, castanhas e jeropiga) foram importantes para poder continuar com energia e a dançar ao ritmo das gaitas e das danças tradicionais que João, Nuno e Teresa quiseram-me ensinar. Desta forma, foi surpreendente conhecer as pessoas mais velhas, que tinham alento de continuar com a festa pela noite dentro, misturadas com as mais jovens que se divertiam com a cinza da fogueira para pintar a cara das inúmeras pessoas que ali se encontravam.
Depois da meia-noite, decidimos ir para casa e dormir um pouco. Este dia tinha sido longo e no dia seguinte esperava-nos uma romaria em honra a São Martinho.
Romaria com lenda histórica
As 10:30 de domingo e os burros já estavam prontos, no centro da aldeia de Paradela, para o início do passeio até à capela de São Martinho. Segundo a Joana, membro da associação AEPGA, a festa comemora o São Martinho e diz a lenda que nos dias de Outono quando o céu está nublado, às vezes podem-se ver alguns raios de sol que tentam iluminar a terra. Na verdade é o São Martino que deixa entrar o sol para alegrar os dias mais frios e cinzentos desta estação.
O passeio, como conta a lenda, esteve marcado pelo sol de São Martinho. Foi relaxado e com algumas paragens para que os burros pudessem descansar e as pessoas tirarem fotos como recordação de um dia inesquecível. Entretanto, a capela de São Martinico estava pronta para receber os peregrinos que tinham vindo de outras zonas do norte de Portugal e Espanha.
Depois da missa tradicional, envolta na natureza, os habitantes de Paradela e os membros de AEPGA preparavam o almoço para todos os participantes. As nuvens pareciam mais próximas do que nunca e a música das gaitas soavam melhor no alto do monte, tudo era uma sensação de paz e tranquilidade, uma perfeita conexão entre homem e natureza. O almoço soube-nos muito bem após um longo e interessante fim-de-semana que estive em Trás-os-Montes.
Mas tudo que é bom tem um fim e eu tinha de partir de novo para minha terra. Ainda tinha algumas horas de viagem pela frente para me consciencializar de novo para o stress da cidade. Mas agora que já passaram alguns dias, tenho na memória várias imagens fotográficas das paisagens, dos burros e das gentes de Trás-os-Montes. Não deixo de pensar na familiaridade e hospitalidade que encontrei lá, sentimentos que não são fáceis de encontrar nos tempos que correm. Agora, no mundo, só se vive na individualidade e há pouca solidariedade com o meio ambiente, os animais, as tradições, a ruralidade… Isto não interessa para a sociedade. Por isso, é que é bom que os mais jovens como os que estão a trabalhar na AEPGA, ALDEIA, PALOMBAR e a futura ANAMNESIS (que promove o cinema Português e Europeu) lutem para que as coisas essenciais da nossa vida não desapareçam. Com movimento de união podem conseguir todos esses objectivos. Força!
Silvia Arjona Martín (Madrid)
