AEPGA

 

Carlos Pradissa

Nascido em 1959, na localidade de Balsareny (Barcelona), Carlos Pradissa é um dos quatro fundadores da companhia de teatro “La Fura dels Baus” e um dos seus diretores artísticos. No seu vasto curriculum, destacam-se a direção de “Mar Mediterrani, Mar Olímpic”, o espetáculo de abertura dos Jogos Olímpicos em Barcelona (1992), com música de Ryuichi Sakamoto, e o macro evento “Los fuzilamentos de Goya”, que em 2008 juntou uma assistência de 500.000 pessoas junto à fonte de Cibeles, em Madrid.

Em 1979 La Fura dels Baus era apenas uma companhia de teatro de rua, composta por uma carroça e uma mula. Em que medida a companhia desse animal teve influência nos espetáculos iniciais da companhia?
Criámos o teatro como uma forma de financiar a aventura de fazer uma viagem de 64 dias numa carroça puxada por uma mula, pelo interior da Catalunha (a mula é um animal híbrido resultado do cruzamento entre um burro e uma égua). Muitos donos de mulas foram perseguidos durante a inquisição, ao longo dos séculos, por ser considerado diabólico: um animal muito resistente, mas de origem antinatural. A mula salvou-nos a vida, era muito inteligente: ao chegar perto de uma estrada asfaltada, a mula acelerava o passo e atravessava muito rapidamente e logo em seguida colocava-se à direita, para evitar o choque com os perigosos veículos de quatro rodas. À noite escapava-se sempre e fugia para quintas habitadas por outros animais.
Era uma mula de idade avançada. Tinha um P marcado na cara, que indicava que era originária da comarca de Pallars (nos Pirinéus), a zona onde se criavam as melhores mulas; era como um Mercedes animal daquela época. Quando a estrada era plana, nós quatro subíamos para a carroça, mas nas subidas todos desciam, para ajudar a mula a puxar a carroça. Foi uma experiência maravilhosa.
Em 1979 o interior da Catalunha era um paraíso. As pessoas das aldeias ficavam muito agradecidas por visitarmos e fazermos espetáculos nas suas localidades com acessos difíceis.

E na sua vida pessoal? Além da colaboração que mantém com a ADEBO (Asociación para la Defensa del Borrico), os burros fazem parte do seu quotidiano? Tem alguma quinta, ou espaço onde conviva com estes animais de forma regular?
Não. Vivo numa área urbana e não tenho oportunidade.

Nalguns espetáculos, como El Quijote e Naumaquia, os burros continuaram a fazer parte do alinhamento. Que significado tem, para a companhia, a escolha destes animais em particular?
Nessa altura pedíamos à organização (ADEBO) um burro para participar em cada espetáculo que realizávamos, para alertar para a sua extinção. Colocávamos o animal num podium, rodeado de comida e água, para que presidisse ao espetáculo. Mas aprendi que é preferível que os burros vivam tranquilos nos prados, longe do ruído da música e dos espectadores dos macro espetáculos dos Fura, que perturbam a grande capacidade auditiva destes animais. Peço desculpa a todos os burros que, por minha culpa, sofreram de stress nos nossos espetáculos. Entretanto aprendi que é muito melhor que descansem em grandes espaços, como o da AEPGA, perto de Miranda do Douro, ou o da ADEBO, em Rute (Córdova), onde os tratam com muito carinho.

Em outubro de 2019, foi lançado o livro “La Fura dels Baus en cuarentena”, para celebrar os 40 anos da companhia. Agora que quase todo o mundo está em quarentena o título parece quase profético. Como vê o futuro de Espanha, e dos eventos culturais tal como os conhecemos, nos próximos anos?
Este é um momento muito bom para o teatro digital. Na nossa fundação E.P.I.C.A. (espacio de producción y creación artistica), dirigida por Pep Gatell, acreditamos que chegou o momento de criar um novo tipo de teatro, interagindo a partir da casa de cada um. O teatro digital é a soma dos personagens teatrais e dos bits 0 e 1, deslocando-se pela rede à velocidade da luz.
Estamos a preparar uma tournée chamada "sphaera mundi", porque em 2022 celebram-se os 500 anos em que muitos marinheiros europeus (alemães, ingleses, franceses, gregos, holandeses, italianos, portugueses e espanhóis), capitaneados primeiro por Magalhães e depois por Elkano, conseguiram circum-navegar o nosso planeta e ligar todos os oceanos. No entanto, depois de tanto tempo ainda não assimilamos que, se queremos superar pandemias como o coronavírus, teremos de remar todos na mesma direção. Estamos todos no mesmo barco.

Nota: O espetáculo digital chamado “La maldición de la corona”, dirigido por Pel Gatell, em que também participa Carlos Pradissa, estreou dia 8 de maio e pode ser visto em https://www.twitch.tv/epicalafuradelsbaus