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Franco Ceraolo

Nascido em 1955 na região italiana de Cerveteri, Franco Ceraolo dedicou grande parte da sua vida ao mundo do espetáculo, como cenógrafo de teatro e cinema. Aí trabalhou com Ettore Scola, Federico Fellini, Bernardo Bertolucci e Martin Scorsese.
Em 2007 muda-se para a Ilha da Graciosa, tendo ficado fascinado com os burros que acompanhavam os habitantes nos trabalhos agrícolas. Para lutar pela preservação destes animais peculiares, fundou a Associação de Criadores e Amigos do Burro Anão da Graciosa, que em 2015 foi reconhecida como raça autóctone.

Nestes anos de convívio com os burros o que mais o surpreendeu ou aprendeu, na relação com estes animais?
São animais fantásticos, que criam uma relação de empatia com os seres humanos, em particular com as crianças. Decorridos mais de dez anos, depois de iniciar esta criação que atualmente conta com 23 exemplares, em centenas de visitas de turistas e habitantes da ilha não se registou nenhum incidente pois, ao contrário do que muita gente pensa, os burros habitualmente - e se são bem tratados - não mordem nem dão coices, são animais muito dóceis. Por tudo isto o que mais me surpreende nestes animais é a sua capacidade de adaptação ao comportamento do ser humano, podendo dizer-se que, quando se cria uma boa empatia, estabelece-se uma relação fiel para toda a vida.

Há algum facto curioso sobre esta raça em particular que queira partilhar?
Sim. A Graciosa era conhecida como a “Ilha dos burros”, situação que estava relacionada com a quantidade de animais existentes. A título de curiosidade, refira-se que, num relatório estatístico de Manuel Bettencourt sobre a Graciosa, publicado em 1950, é mencionado que em 1926 a ilha contava com cerca de 6.800 habitantes e 1.103 asininos, mais de um exemplar por cada família. Outra das explicações para esta denominação está relacionada com o facto de, quando o barco de transporte de mercadorias se aproximava do cais serem avistadas dezenas de exemplares, utilizados como meios de transporte de mercadorias, nomeadamente produtos agricolas.

Esta raça tem vindo a expandir-se pelas ilhas dos Açores. Sabe que usos lhes são dados? Para ajudar a trabalhar nos campos ou em atividades de animação turística?
Felizmente tem-se registado um crescimento do interesse por esta raça noutras ilhas dos Açores, à semelhança do que se passou em épocas passadas. Relativamente aos usos que lhe são dados são desconhecidos. Posso, no entanto, afirmar que na Graciosa muitos animais ainda são utilizados no apoio aos trabalhos agricolas.

Após o grande esforço em conseguir o reconhecimento como raça autóctone, acha que este período de isolamento social e consequente quebra do turismo pode afetar a sobrevivência do Burro Anão da Graciosa?
Terá concerteza um impacto negativo, que é transversal a outras atividades turisticas, registando-se um decréscimo de visitas, nesta criação, até meados do mês de junho, situação que se tem infletido com a abertura dos voos inter-ilhas. No entanto, não me parece que este período de isolamento social afete a sobrevivência do Burro da Graciosa, atendendo a que muitos criadores da ilha nos têm contactado para acolhermos fêmeas para procriação.

Sabemos que está em fase de rodagem de um filme baseado no livro “Platero e Eu”. Como surgiu a ideia de usar os burros e a paisagem da Graciosa?
Foi através do meu amigo Fernando Mora Ramos, encenador do Teatro da Rainha, que me aconselhou a leitura deste extraordinário livro “Platero y yo”. Quando o li, numa viagem que fiz a Lisboa, fiquei verdadeiramente fascinado, e facilmente me senti transportado para o quotidiano de muitos habitantes da Ilha Graciosa, onde este animal ainda é utilizado para lavrar a terra e como meio de transporte. A minha parte criativa, logo recolheu em pensamento todo o material vivo para filmar homens e asininos imersos na suavidade da paisagem da ilha, que podiamos mostrar a todo mundo ao vivo, e não como fragmentos de uma recordação nostálgica. O filme encontra-se em fase de rodagem e o realizador Gonçalo Tocha tem-se surpreendido com a quantidade material recolhido e a recolher. Creio que para um país europeu, em pleno século XXI, a perpetuidade da presença do burro, possa ser considerado um facto extraordinário.