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4.º Encontro Ibérico de Raças Autóctones reforça importância do pastoreio extensivo na gestão sustentável do território

Miranda do Douro acolheu, nos dias 4 e 5 de setembro, o 4.º Encontro Ibérico de Raças Autóctones, uma iniciativa dedicada à valorização das raças autóctones, das pastagens e do pastoreio extensivo enquanto elementos fundamentais para a gestão sustentável do território e para a vitalidade das comunidades rurais.

Promovido pelo Município de Miranda do Douro e pela Associação para o Estudo e Proteção do Gado Asinino (AEPGA), com orientação técnica da Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV) e da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N), o encontro reuniu criadores, pastores, investigadores, técnicos, associações e representantes de entidades públicas e privadas ligadas à agricultura, pecuária, conservação da natureza, investigação e desenvolvimento rural.

A iniciativa integrou as comemorações do Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores 2026, proclamado pelas Nações Unidas, destacando o contributo dos pastores e dos animais em pastoreio para a conservação das pastagens, da biodiversidade e dos solos, bem como para a prevenção de incêndios rurais e a adaptação às alterações climáticas.


Raças autóctones: património vivo e responsabilidade partilhada

Ao longo dos dois dias foram debatidos os principais desafios e oportunidades associados à manutenção dos sistemas de pastoreio extensivo e à valorização das raças autóctones, tendo como ponto de partida as necessidades de quem vive e trabalha no território.

A sessão de abertura contou com a participação do vice-presidente da Câmara Municipal de Miranda do Douro, Nuno Rodrigues, da chefe do Gabinete de Recursos Genéticos Animais da DGAV, Maria José Costa, do chefe de Divisão de Trás-os-Montes da CCDR Norte, Francisco Ribeiro, e do secretário técnico da raça asinina de Miranda, Miguel Nóvoa.

A importância das raças autóctones enquanto património genético, cultural, ambiental e produtivo esteve presente ao longo do encontro. Foi destacada a responsabilidade partilhada entre criadores, associações responsáveis pela gestão dos livros genealógicos e registos e Administração Pública na conservação das 64 raças autóctones portuguesas.

A continuidade deste património depende, contudo, da existência de condições que permitam aos produtores manter a sua atividade. Entre os principais desafios identificados está a menor rentabilidade de algumas produções de raças autóctones face a modelos de produção mais intensivos.

Neste contexto, foi defendida a necessidade de políticas públicas ajustadas às especificidades destes sistemas, que reconheçam não apenas o valor dos produtos, mas também os serviços ambientais e territoriais prestados pelos produtores e pastores. A valorização económica destas atividades é igualmente considerada essencial para assegurar a sua continuidade e favorecer a renovação geracional.




Pastoreio e prevenção de incêndios rurais

A relação entre o pastoreio extensivo e a prevenção de incêndios rurais constituiu um dos principais temas do programa.

A FERA – Federação Nacional das Associações de Raças Autóctones apresentou uma reflexão sobre o papel das raças autóctones nas políticas públicas de gestão do território. Por sua vez, o projeto ASINIFIRE – Asininos na Prevenção de Incêndios para a Resiliência Ecológica, liderado pela Universidade Politécnica de Bragança (UPB), apresentou a experiência de utilização de asininos na gestão da vegetação e na redução da carga combustível.

A AEPGA deu também a conhecer o trabalho desenvolvido pela sua Brigada Florestal Asinina, demonstrando o potencial dos equídeos na gestão sustentável da paisagem, nomeadamente em áreas estratégicas e zonas de interface urbano-rural.

O pastoreio controlado foi apresentado como uma ferramenta complementar de gestão da vegetação, permitindo associar a redução da biomassa à manutenção das funções ecológicas das pastagens.

O encontro reforçou, assim, a necessidade de reconhecer o pastoreio não apenas pela sua dimensão produtiva, mas também pelos serviços que presta ao território, designadamente na manutenção da paisagem, conservação da biodiversidade, proteção dos solos e prevenção de incêndios.




Ciência e tecnologia ao serviço do território

A investigação e a inovação estiveram igualmente presentes no programa.

A Universidade Politécnica de Bragança (UPB) apresentou o trabalho “Do rebanho à nuvem: tecnologia ao serviço da silvopastorícia e das raças autóctones”, destacando o potencial da georreferenciação, dos sistemas de informação e de outras ferramentas digitais no acompanhamento dos animais e na gestão das áreas de pastoreio.

Foram ainda discutidas soluções destinadas a melhorar a comunicação e a capacidade de resposta dos produtores perante situações de risco. Entre as possibilidades identificadas está o desenvolvimento de ferramentas capazes de emitir alertas sobre incêndios, presença de predadores ou outras ocorrências relevantes.

A tecnologia foi, deste modo, enquadrada como uma ferramenta de apoio ao pastor e à gestão do território, facilitando o acesso à informação e contribuindo para uma resposta mais rápida e preventiva.




Coexistência com o lobo: respostas integradas para quem vive e trabalha no território

A coexistência entre a pecuária extensiva e o lobo-ibérico constituiu outro dos temas centrais do encontro e um dos assuntos que mais diretamente refletem os desafios enfrentados pelos produtores do Nordeste Transmontano.

No âmbito do projeto COEXISTIR – Reduzir conflitos, promover a convivência entre as comunidades rurais e o lobo no Nordeste Transmontano, desenvolvido pela AEPGA e pela Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural, estão previstas um conjunto de medidas de prevenção e mitigação de conflitos, de apoio aos produtores e de reforço da proteção dos rebanhos.

Entre as ações previstas, destaca-se a disponibilização de 20 Cães de Gado Transmontano, com registo no Livro de Origem e rastreabilidade genética, e de 10 conjuntos de cercas elétricas reforçadas, complementadas por acompanhamento técnico às explorações. A intervenção procura responder às especificidades de cada exploração, considerando fatores como a dimensão dos rebanhos, o histórico de ocorrências e as características das propriedades. Pretende-se, assim, promover medidas preventivas adequadas a cada contexto, contribuindo para a redução dos conflitos e para a continuidade da atividade pecuária extensiva.



Foi igualmente identificada como prioridade a criação e o desenvolvimento de ferramentas preventivas de alerta para a proximidade de predadores, reforçando a capacidade dos produtores para antecipar situações de risco e adotar medidas de proteção dos rebanhos.

O projeto enquadra-se nas dimensões prioritárias estabelecidas pela Portaria n.º 247/2025/2, de 4 de abril, orientadas para a otimização da cogestão e para a implementação das medidas previstas nos Planos de Cogestão do Parque Natural do Douro Internacional (PNDI) e do Parque Natural de Montesinho (PNM).

A abordagem do COEXISTIR assenta em cinco linhas de ação complementares: capacitação dos agentes do território; prevenção e mitigação de conflitos; criação de sinergias e parcerias; promoção dos produtos e do território; e restauro ecológico. Esta abordagem procura articular a conservação do lobo com as necessidades das comunidades rurais e contribuir para a concretização das prioridades definidas nos Planos de Cogestão do PNDI e do PNM.

Este enquadramento resulta também da participação da Palombar e da AEPGA nas Comissões de Cogestão do PNDI e do PNM, no âmbito do modelo de cogestão das áreas protegidas, coordenado pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF). Nestas estruturas, ambas as organizações representam o setor das organizações não governamentais de ambiente (ONGA) e entidades equiparadas, juntamente com a Confederação Portuguesa das Associações de Defesa do Ambiente (CPADA), responsável pela eleição dos representantes deste setor.

A participação nestas estruturas permite contribuir para uma visão integrada do território e para a concretização dos seis eixos estratégicos da cogestão: valorização e salvaguarda do património natural; promoção da identidade local e das dinâmicas sociais; desenvolvimento rural e económico sustentável; investigação, desenvolvimento e inovação; sensibilização, formação e capacitação; e comunicação e promoção do território.

Neste contexto, as medidas dirigidas à coexistência com o lobo devem ser entendidas como parte de uma abordagem territorial mais abrangente, que envolve diferentes entidades e agentes e procura criar melhores condições para a continuidade da atividade pecuária extensiva e para a valorização dos territórios onde esta atividade se desenvolve.

A coexistência entre a conservação do lobo e a continuidade da pecuária extensiva exige, assim, uma abordagem integrada, preventiva e adaptada às características de cada exploração e de cada território, que tenha em consideração, de forma equilibrada, os objetivos de conservação da espécie e as necessidades e condições de quem vive e trabalha no território.




Economia circular: da lã ao solo

A economia circular foi outro dos temas abordados, através do projeto CIRCWOOL – Da lã à regeneração dos solos: economia circular ao serviço do pastoreio, apresentado pelo Centro de Ciência Viva – Plataforma de Ciência Aberta do Município de Figueira de Castelo Rodrigo.

O projeto explora o potencial da lã rústica como recurso para a regeneração dos solos agrícolas. Atualmente classificada como resíduo, a lã representa um desafio para muitos produtores, devido aos custos associados à tosquia e às dificuldades de valorização.

Segundo os dados apresentados no encontro, cerca de 98,9% da lã produzida no Nordeste e na Beira Interior fica atualmente sem aproveitamento.

A investigação procura avaliar características da lã, nomeadamente a sua capacidade de retenção de água e o seu potencial contributo para a melhoria das condições dos solos, abrindo novas possibilidades de utilização deste recurso.

A valorização da lã constitui, assim, um exemplo de como problemas concretos da atividade pecuária podem dar origem a soluções de inovação, sustentabilidade e criação de valor.




Valorizar os serviços prestados pelos pastores

A necessidade de reconhecer o valor económico, ambiental e social do pastoreio extensivo foi transversal ao encontro.

Para além da produção de alimentos, estes sistemas contribuem para a manutenção das paisagens, conservação da biodiversidade, proteção dos solos e redução da carga combustível. Estes contributos, entendidos como serviços de ecossistema, deverão ser mais claramente identificados, quantificados e considerados nas políticas públicas.

Foi, por isso, apontada a necessidade de desenvolver métodos simples de quantificação destes serviços, permitindo demonstrar os benefícios ambientais associados à atividade e criar melhores condições para o seu reconhecimento e valorização.

A valorização dos produtos das raças autóctones, o reconhecimento dos serviços de ecossistema, o reforço dos mecanismos de apoio e a formação foram identificados como dimensões fundamentais para garantir a sustentabilidade destes sistemas e a sua continuidade no território.




Prioridades para os próximos meses

O encontro procurou transformar a reflexão e a partilha de experiências em linhas concretas de trabalho. Entre as prioridades identificadas estão:
  • Reforçar os apoios ao pastoreio extensivo com raças autóctones, nomeadamente através de majorações para sistemas devidamente comprovados, incluindo por geolocalização;
  • Desenvolver sistemas de alerta de proximidade do lobo, integrados nas ferramentas de monitorização do território, para reforçar a capacidade de prevenção e proteção dos rebanhos;
  • Reforçar as medidas de prevenção e mitigação de conflitos, adaptando as soluções às características das explorações e articulando-as com os instrumentos de cogestão das áreas protegidas;
  • Criar mecanismos simples de quantificação dos serviços de ecossistema prestados pelo pastoreio, designadamente na prevenção de incêndios, conservação dos solos, manutenção da biodiversidade e gestão da paisagem;
  • Assinalar o Dia Nacional das Raças Autóctones, a 11 de novembro, promovendo a sensibilização para a importância deste património e para as políticas públicas dirigidas ao setor;
  • Reforçar a presença de produtos de raças autóctones na alimentação pública, nomeadamente em cantinas escolares e instituições particulares de solidariedade social;
  • Reforçar a formação e capacitação de jovens e profissionais do setor, incluindo a preparação de um curso de capacitação transfronteiriço para 2027, dedicado à utilização de equídeos na gestão da paisagem e dos espaços florestais.
Estas prioridades refletem a necessidade de aproximar as políticas públicas da realidade das explorações e de transformar o reconhecimento do valor do pastoreio em medidas concretas de apoio à atividade.




Formação e renovação geracional

A continuidade da pastorícia depende também da capacidade de atrair e fixar novas gerações no território.

O encontro destacou a importância do ensino e da formação profissional agrícola, criando condições para que os jovens que optam por permanecer nas áreas rurais e dar continuidade à atividade pastoril tenham acesso a conhecimento, capacitação e perspetivas de viabilidade económica.

A renovação geracional foi, assim, apresentada como uma questão transversal: conservar as raças autóctones implica também garantir a existência de pessoas e explorações capazes de assegurar a sua criação e maneio no território.

Neste contexto, a AEPGA reafirmou o compromisso de continuar a trabalhar em conjunto com associações de criadores, autarquias, ICNF, entidades públicas, comunidade científica e comunidades locais, valorizando o conhecimento de quem está no terreno e procurando contribuir para respostas mais eficazes aos desafios que afetam os produtores.




Um território com futuro

O 4.º Encontro Ibérico de Raças Autóctones reforçou a importância das pastagens, das raças autóctones e do pastoreio extensivo na gestão sustentável dos territórios rurais.

Mais do que um espaço de apresentação de projetos e experiências, o encontro permitiu aproximar diferentes agentes e colocar em discussão problemas concretos que condicionam a atividade pastoril, como a rentabilidade das explorações, a renovação geracional, os conflitos com predadores, a valorização dos produtos e o reconhecimento dos serviços prestados ao território.

A reflexão desenvolvida em Miranda do Douro evidenciou a ligação entre a conservação da biodiversidade, a gestão da paisagem e a prevenção de incêndios e outros riscos rurais e a capacidade de manter pessoas e atividade económica no território.

Valorizar quem vive e trabalha no campo é, por isso, parte integrante da conservação do património natural e rural.

No Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores, Miranda do Douro reafirmou-se como espaço de reflexão, partilha e ação em torno do futuro do mundo rural.

A AEPGA e o Município de Miranda do Douro reafirmam o compromisso de continuar a promover a valorização das raças autóctones, o apoio aos criadores e pastores, a conservação da biodiversidade e a gestão sustentável da paisagem, em articulação com entidades públicas, instituições científicas, associações e comunidades locais.

O encontro deixou uma ideia central: a conservação da natureza e a sustentabilidade das atividades rurais devem ser trabalhadas em conjunto, com os agentes do território e através de soluções concretas e mecanismos de cooperação capazes de responder aos desafios atuais e preparar o futuro.