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A convivência entre a pastorícia e o lobo ibérico esteve em destaque na FAB - Feira Agrícola de Bragança, na Tertúlia das Sinergias Rurais

A convivência entre a pastorícia e o lobo ibérico esteve em destaque na FAB - Feira Agrícola de Bragança, na Tertúlia das Sinergias Rurais que reuniu pastores, técnicos, investigadores e representantes de diferentes entidades para refletir sobre os desafios atuais e as oportunidades de valorização do Cão de Gado Transmontano como ferramenta essencial na proteção dos rebanhos.
 
A sessão foi aberta por Miguel Nóvoa, que sublinhou a importância do diálogo entre os vários intervenientes para construir soluções sustentáveis, aprendendo com as experiências desenvolvidas ao longo das últimas décadas. Durante a sua intervenção, apresentou ainda o novo programa que a AEPGA pretende implementar, prevendo a entrega de 20 cães de gado devidamente acompanhados ao nível da genética, saúde e educação, bem como a continuação do trabalho de valorização da pastorícia.
 
Em representação do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), José Luís Rosa recordou o histórico do programa iniciado na década de 1990, salientando que a utilização de cães de proteção revelou ser o fator mais eficaz na redução dos ataques de lobo aos rebanhos. A experiência demonstrou que o sucesso depende sobretudo do maneio adequado dos animais e da sua integração precoce no rebanho.
 
Leonel Castro, da Associação de Criadores do Cão de Gado Transmontano, destacou a necessidade de revitalizar este programa, reforçando a importância de preservar a funcionalidade da raça e de sensibilizar os produtores para as vantagens da utilização destes cães, evitando que sejam encarados apenas como um requisito associado aos apoios disponíveis.
 
Ao longo da tertúlia, Silvino alertou para os desafios genéticos que atualmente afetam a raça, nomeadamente os riscos da consanguinidade e da seleção orientada sobretudo por critérios estéticos. Defendeu a necessidade de retomar uma gestão genética rigorosa, assegurando a saúde dos animais e preservando as características que fazem do Cão de Gado Transmontano um dos mais eficazes cães de proteção de rebanhos.
 
A componente prática foi enriquecida pelo testemunho do pastor Miguel Afonso, que partilhou a sua experiência diária de convivência com duas alcateias de lobos. Com um efetivo de cerca de 180 ovelhas protegido por nove cães de gado, referiu não registar ataques, atribuindo este resultado ao correto maneio dos animais e ao acompanhamento permanente do rebanho. Destacou ainda que os cães devem crescer desde muito jovens junto das ovelhas, desenvolvendo naturalmente os comportamentos de proteção.
 
Os participantes concordaram igualmente que a preservação da pastorícia é fundamental para a conservação da biodiversidade e para a manutenção das paisagens rurais. Entre os principais desafios identificados estiveram a necessidade de melhorar os apoios financeiros destinados aos produtores, adaptar os critérios das medidas agroambientais à realidade do terreno e reforçar o reconhecimento do papel desempenhado pelos pastores na gestão sustentável do território.
 
A sessão incluiu ainda a apresentação do videoclipe "Vida de Pastor", integrado no projeto musical Batucada. A iniciativa pretende dar visibilidade ao quotidiano dos pastores e sensibilizar a sociedade para os desafios enfrentados por quem mantém viva esta atividade essencial.
 
Como resultado da tertúlia, ficou assumido o compromisso de elaborar propostas conjuntas dirigidas ao Ministério da Agricultura, procurando reforçar os apoios à pastorícia, promover a utilização funcional do Cão de Gado Transmontano e criar melhores condições para uma convivência equilibrada entre a atividade pecuária e a conservação do lobo ibérico.