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Miranda do Douro acolheu o 3º Encontro Ibérico de Raças Autóctones

O 3º Encontro Ibérico de Raças Autóctones, que decorreu no dia 5 de setembro em Miranda do Douro, realizou-se no âmbito das celebrações da Feira do Naso, festividades marcada pela realização de uma importante feira de gado, reativada desde 2002 pela AEPGA. O evento juntou especialistas, criadores e autarcas para debater o futuro da conservação e valorização deste património, numa altura em que muitas raças enfrentam grandes desafios, como a diminuição de efetivos ou limitações de rentabilidade quando comparadas com raças produtivas.

A sessão de abertura com a presença de Miguel Nóvoa, pela direção da AEPGA, Helena Barril e Nuno Rodrigues, presidente e vice-presidente, respetivamente, do Município de Miranda do Douro, e Paulo Ramalho, vice-presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte. Durante as boas vindas aos participantes, o painel salientou a importância das raças autóctones e dos agricultores que as mantêm na manutenção da paisagem rural, na prevenção da desertificação, e como promotores da biodiversidade e identidade cultural de uma região. Por outro lado, destacaram igualmente os desafios na sua preservação, como o declínio dos efetivos e a necessidade de políticas públicas robustas e apoios financeiros sérios que garantam confiança e futuro aos criadores e jovens agricultores.

Um dos temas em discussão neste encontro foi a aposta na inseminação artificial como prática de preservação das raças autóctones, sobre a qual foram partilhadas diversas opiniões sobre a sua viabilidade, vantagens, limitações e necessidades de investimentos. O Centro de Valorização e Melhoramento das Raças Autóctones em Malhadas, lançado com investimento municipal, foi apresentado pelo vice-presidente Nuno Rodrigues e Afonso Pimentel, veterinário municipal de Miranda do Douro. Este terá como missão recolher e preservar material germinal, promover a inseminação artificial e apoiar geneticamente as raças autóctones locais. Rui Dantas, da FERA (Federação Nacional das Associações de Raças Autóctones), apresentou o trabalho desenvolvido no Centro de Colheita de Sémen de São Torcato, salientando a importância da inseminação artificial para o melhoramento genético e a conservação da biodiversidade, ainda que a sua utilização em algumas raças de bovinos como a Barrosã, Maronesa ou Mirandesa, esteja em declínio, uma vez que o aumento da dimensão das explorações torna economicamente mais rentável a manutenção de um touro para reprodução por monta natural.
A finalizar a manhã, Pedro Neto, vereador do Município do Fundão, apresentou o Centro Agrotec, uma estrutura de inovação rural, que funciona como uma ponte entre produtores de tecnologia e agricultores, promovendo a adoção de soluções de baixo custo para aumentar a competitividade.

A tarde continuou com a abertura por Sandra Domingues, da Direção de Serviços de Alimentação e Veterinária da Região Norte, que destacou a importância das raças autóctones para o desenvolvimento rural por desempenham um papel crucial no combate a incêndios e nas alterações climáticas através do pastoreio, além de impulsionarem a produção biológica e a economia local.
Seguiram-se as apresentações de dois projetos focados na gestão da paisagem. O projeto transfronteiriço Asinifire, apresentado por Maria Villa, Paulo Castro e Jesús de Gabriel, baseado no pastoreio controlado de burros das raças Asinina de Miranda e Zamorana-Leonesa, que combina a redução do risco de fogo com a promoção a valorização das raças asininas e a vitalização de áreas rurais despovoadas. A doutoranda Anabela Paula, da Universdade de Coimbra, apresentou o projeto Phoenix, desenvolvido na Serra da Gata-Malcata, como exemplo de co-criação de soluções sustentáveis e de envolvimento das comunidades na prevenção de incêndios e na valorização do setor produtivo. A investigadora destacou a necessidade de governança transfronteiriça e de estratégias de resiliência territorial, como a manutenção de mosaicos agrossilvopastoris e agroflorestas.

A terminar o evento, sublinhou-se ainda a urgência da valorização da lã portuguesa, com intervenções de Tiago Perloiro da ANCORM (Associação Nacional de Criadores de Ovinos Merino) e de Rosa Pomar (artesã e empreendedora do projeto Retrosaria), que apontaram desafios como a falta de mercado, problemas no processamento e a necessidade de um sistema de certificação nacional da lã. Foram igualmente destacadas soluções como a rastreabilidade, novas aplicações da lã e a cooperação entre associações e criadores.

Neste encontro, as discussões reforçaram a importância das raças autóctones na biodiversidade, no desenvolvimento rural do interior português e na coesão social, defendendo políticas públicas mais eficazes, inovação e colaboração transfronteiriça para garantir o futuro destes recursos. A AEPGA, como organizadora deste evento, com o apoio do Município de Miranda do Douro, agradece a presença de todos os oradores e público que entusiasticamente participaram neste encontro.