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Quatro dias a caminhar e a encantar no Nordeste Burriqueiro

O mês de setembro trouxe de volta o Nordeste Burriqueiro, uma caminhada que reúne pessoas em torno da valorização do Burro de Miranda e do património do Nordeste Transmontano. Realizada de 26 a 29 de setembro, a 16.ª edição encerrou o ano de 2026, tendo superado todas as expectativas.

O percurso começou na aldeia de Matela e terminou em Atenor, durante cerca de 50 quilómetros, passando também por Algoso, Uva, Mora e Teixeira. Ao longo do caminho, os doze participantes foram acompanhados por Lourenço, Pintassilgo e Hortelão, três Burros de Miranda.

Para Luís Alves, esta é uma oportunidade para “desfrutar do encantador Nordeste Transmontano ao ritmo dos burrinhos, em total sintonia com a natureza, rodeado por companheiros e guias incríveis que ajudam a tornar tudo ainda mais memorável”.

Para além da proximidade com o Burro de Miranda, a caminhada procura também fortalecer os laços entre os participantes e as comunidades locais. Luís destaca o “contacto com as pessoas das aldeias” e a “relevância para a região” do trabalho desenvolvido pela AEPGA.

Já David Iguaz descreve a atividade como uma “versão contemporânea de simbiose mágica das relações ancestrais”, considerando-a também uma “viagem inesquecível que penetra no âmago da natureza humana e natural de Trás-os-Montes”.

Mas no Nordeste Burriqueiro não se caminha apenas, também se explora. Na aldeia de Uva, os participantes tiveram a oportunidade de conhecer a adega da Menina de Uva, projeto criado em 2017 a partir de uma pequena produção de vinho natural. A visita incluiu uma prova de vinhos, produzido a partir de castas tradicionais locais, e uma passagem pelo Centro de Interpretação dos Pombais Tradicionais, onde a Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural partilhou a história destas construções e a sua importância na arquitetura rural.

A passagem por Uva ficou ainda marcada pela visita a José Antão, mestre cuteleiro que dedicou a vida à arte de trabalhar o ferro. Atualmente, continua a fazer facas e navalhas artesanais, algumas das quais se distinguem por elementos personalizados que remetem para símbolos característicos da aldeia, como o pombal e a pomba.

Depois de deixarem para trás os pombais tradicionais, os participantes seguiram por Teixeira até Atenor, onde terminou a caminhada no Centro de Valorização do Burro de Miranda. Para Madalena Fontes, a experiência foi marcada por “um sentimento que, com dificuldade, definiria como uma mistura de pensamentos e emoções”. A participante destaca ainda as aldeias por onde passaram, “onde se vive o verdadeiro sentido de comunidade”.

Para além dos quilómetros percorridos e das experiências vividas ao longo do caminho, o Nordeste Burriqueiro deixa também espaço para a reflexão. João Almeida descreve a caminhada como uma oportunidade para encontrar “novos sítios e pessoas, novas paisagens, novos silêncios e tempo”, num ritmo que permite afastar o ruído do quotidiano. “Quatro dias apenas, mas que enchem como semanas ou meses”, resume.

Também a companhia dos burros dá um significado especial à experiência. Para João, estes animais parecem saber “qual o passo certo, como aproveitar o que a viagem nos dá no agora” e, acima de tudo, “o quão melhor é tudo isto com companhia”. Com um olhar dócil e desprovido de julgamento, tornam-se ouvintes atentos, mesmo sem palavras. Afinal, como conclui o participante, “vozes de burro… chegam ao coração”.

As inscrições para a próxima edição do Nordeste Burriqueiro, prevista para maio de 2027, abrem em janeiro do mesmo ano.

Fotografias de Cláudia Costa