AEPGA

 

Quando a Associação para o Estudo e Proteção do Gado Asinino (AEPGA) foi criada em 2001, o burro havia perdido a sua centralidade na vida dos mirandeses, levando a situações frequentes de negligência ou abandono; a outro nível, também a cultura tradicional do Planalto Mirandês havia sido marginalizada - com a exceção de alguns elementos folclorizados durante o Estado Novo -, na procura de um modo de vida urbano e moderno.

De facto, tanto o burro como a cultura tradicional eram associados a um mundo rural de tempos idos, marcado pelo trabalho agrícola árduo, pela sobrepopulação do território e pela pobreza, bem como pelo subdesenvolvimento económico e cultural. Esta representação negativa da ruralidade levou à desvalorização simbólica - e também económica, em alguns casos - de tudo aquilo que lhe estava associado.

Ao compreender que seria impossível lutar pela preservação do Burro de Miranda sem reverter essa perspetiva depreciativa do mundo rural, a AEPGA adotou uma abordagem que toma o burro como um todo, composto não só de dimensões biológicas que interessam conservar, mas também de uma imensa riqueza cultural, constituída em grande parte por práticas e saberes tradicionais. Partindo desse princípio, e de forma a complementar medidas de conservação mais concretas, foi feito um esforço de recuperação e reinvenção dos significados tradicionais do animal, bem como de criação de novos sentidos, nomeadamente através da atribuição de usos distintos para os animais.

A organização de eventos lúdicos é o exemplo mais imediato deste trabalho, uma vez que ao contacto com os burros ficou associada a interação com os habitantes das aldeias, o ensino de saberes tradicionais, as provas da gastronomia local e os concertos de música mirandesa. O festival L Burro i l Gueiteiro, co-organizado inicialmente pela Galandum Galundaina - Associação Cultural e, mais tarde, também pela Palombar - Associação de Conservação da Natureza e do Património Rural , foi um dos primeiros eventos do género, tendo como objetivo principal celebrar, e dessa forma valorizar, dois elementos da cultura mirandesa que haviam perdido a importância de outros tempos: o burro e o gaiteiro. Evitando uma lógica folclorista, procurava demonstrar-se a diversidade e capacidade de reinvenção da cultura tradicional, sendo por isso dado especial enfoque a expressões inovadoras que questionassem tanto as representações negativas como os estereótipos românticos da ruralidade.

Mais de uma década volvida, estes eventos multiplicaram-se, foram aprimorados e estenderam-se a outras associações e entidades da região, trazendo público de fora e, ainda mais importante, envolvendo um número cada vez maior de habitantes locais. Graças a estas e outras iniciativas, muitos mirandeses reencontraram na sua cultura um elemento identitário que une todas as gerações.

Desta forma, o Burro de Miranda, hoje como outrora, vai fazendo das suas longas e lanudas orelhas uma arma de intervenção, pela cultura tradicional reinventada e pela revitalização do Planalto Mirandês.